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Agosto de 2008
Diário da Daddy

Tradicional bairro de Londres que já abrigou judeus e protestantes, Brick Lane é hoje a principal residência dos imigrantes de Bangladesh, esbanja diversidade e tornou-se importante pólo cultural com a reunião de artistas, músicos e designers de moda

Por Daddy Mallagoli + Fotos Rodrigo Jazinski

Antes de ser um bairro, Brick Lane é, na verdade, uma rua; uma longa rua que começou a ser construída no século XV e que atravessa diversas subprefeituras de Londres – começa em Bethnal Green, passa por Spitalfields e chega a Whitechapel, no leste da cidade. E essa rua, região ou bairro, como preferir, mantém uma feira todos os domingos desde o século XVII; no início, era apenas para a comercialização de frutas e legumes. Hoje, tornou-se um conglomerado de mercados das mais variadas comidas, roupas e utensílios, e que pode surpreender o mais assíduo freqüentador pelo fato de que qualquer pessoa pode armar sua banca e vender seus itens – basta, para isso, pagar cinco libras por dia.

Essa já seria uma boa explicação para a diversidade cultural que ali impera. Cidadãos de Bangladesh são hoje os principais habitantes, mas com a feira, o fluxo de turistas e famílias para o local aumenta consideravelmente, misturando cores, línguas, raças, sabores e religiões. De roupas baratas, feitas à mão, e chiquérrimas Havaianas que dominam o verão londrino a especiarias e comidas dos mais distantes cantos do planeta, acha-se de tudo em Brick Lane.

Sempre acolhendo imigrantes, a área já foi residência de judeus, irlandeses e protestantes franceses, o que talvez tenha sido o tempero dessa salada cultural. Apenas para ilustrar, em 1742, os protestantes construíram uma capela em uma das esquinas da longa rua que, em 1809, tornou-se uma capela judia; dez anos depois, metodista; e, em 1976, uma mesquita. Tudo isso no mesmo endereço.

A grande migração de Bangladesh ocorreu já no século XX, quando as pessoas chegaram atrás de trabalho. Brick Lane virou referência em confecção de roupas, e hoje são inúmeros os restaurantes que servem comida com curry, sempre barata. A maior parte dos estabelecimentos é gerenciada por muçulmanos, o que restringe a venda de bebidas alcoólicas.

Com tanta gente vindo de lugares diferentes, há o clima de que "tudo está acontecendo ao mesmo tempo", e foi natural o aumento de artistas freqüentando ou morando ali, e emprestando um certo vanguardismo ao bairro. A arte moderna está por todos os cantos, e já é famosa a atuação de artistas de grafite, como o famoso e polêmico Bansky. Recentemente, o local passou a abrigar também exibições de estudantes de arte e moda. Para completar o cenário, os músicos de rua preenchem os mercados de domingo, sempre com criatividade e exibindo a diversidade de estilos.

Filme ‘Brick Lane’ vetado pela comunidade local

Em 2003, a escritora Monica Ali lançou um romance com o título de ‘Brick Lane’, contando a história de uma mulher que se muda para a Londres da década de 80 para viver um casamento arranjado. Em 2006, o livro virou filme, e foi duramente criticado pela comunidade local, que afirmou não se reconhecer na história e ver sua cultura tratada de forma caricatural. Os produtores precisaram usar locações diferentes para realizar o filme, já que na região foi criada uma campanha contra a história de Ali.