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Agosto de 2010
Moda para durar

Aplicada ao mundo fashion, a sustentabilidade está tanto nos materiais usados nas roupas quanto na forma como consumimos

 

Por Maisa Infante

 

Moda e consumo andam lado a lado e isso é inevitável. Apenas essa afirmação já é suficiente para percebermos que não é nada simples a tarefa de aplicar a sustentabilidade ao mundo fashion. Toda a cadeia produtiva – da produção do tecido ao consumo final – tem altos impactos ambientais e sociais que precisam ser minimizados para podermos dizer que estamos fazendo “moda sustentável”.

 

O melhor que nós, consumidores, temos a fazer se quisermos ser sustentáveis quando o assunto é moda, é procurar peças com materiais um pouco mais amigos da natureza e da sociedade, participarmos de projetos que estimulam o reaproveitamento de tecidos e, talvez o principal, consumir menos e melhor. E é possível fazer tudo isso sem entrar na ‘neura’ de que não podemos comprar absolutamente nada que polua o meio-ambiente; ou que não podemos, jamais, nos render aos nossos desejos consumistas; ou, ainda, que precisamos levantar a bandeira de algum movimento e entrar para o time dos chamados “ecochatos”.

Claro que é preciso mudar hábitos e consumir menos, mas você não precisa virar um patrulheiro e só comprar peças de algodão orgânico e couro vegetal.

 

O melhor jeito de se engajar é começar aos poucos, prestando atenção no que se compra (do que é feito, como a empresa lida com a sustentabilidade etc.), fazendo algumas escolhas mais conscientes e, por que não, abrindo mão de alguns desejos de consumo?

 

Materiais

 

Largamente usado pela indústria da moda, o algodão é uma das culturas mais poluidoras que existem (seu cultivo é responsável pelo consumo de 25% dos inseticidas produzidos no mundo). Ao optar por roupas feitas com algodão orgânico, cultivado sem pesticidas, você, imediatamente, está contribuindo para uma poluição menor. “E o algodão orgânico não é usado para fazer camisetas. Já existem diversos tipos de malhas, cambraia e jeans feitos com esse tipo de algodão”, explica Alice Lobo, jornalista do blog Verdinho Básico.


Outro processo muito agressivo e poluidor é o tingimento. Segundo pesquisa da Universidade Estadual da Carolina do Norte, cerca de 85% da água usada no processamento têxtil está relacionada com os processos de tinturaria e acabamentos. Além da energia necessária para aquecer a água, 75% de toda a energia e 65% dos químicos necessários para converter as fibras em vestuário são usados na tinturaria e acabamentos. Então, se você quer ser sustentável, vale optar por peças que tenham sido tingidas usando corantes naturais, como a lã ecológica, que também tem a vantagem de ser retirada de animais criados sem hormônios, em pastos livres e em situações não estressantes.

 

O couro, muito apreciado na indústria da moda, pode ser substituído pelo couro vegetal, feito a partir do látex extraído das seringueiras. Os impactos ambientais são muito menores quando comparadas com o que acontece na criação e abatimento do gado. Mas é preciso ficar atento à forma com as seringueiras são cultivadas. Hoje, existem técnicas que permitem o extrativismo sustentável da borracha, eliminando processos intermediários, a insalubridade dos métodos tradicionais, o consumo excessivo de água e eletricidade.

 

Consumo e Uso

 

“Quando consumimos uma peça de roupa (que não brota nas araras das lojas) precisamos pensar no processo produtivo e em todo o ciclo de vida da peça. O principal impacto gerado -  avaliando todo o ciclo de vida do produto - é a etapa do uso. Atualmente, das mais de 6 bilhões de pessoas no planeta, a maioria veste, lava e passa roupas. O que essa etapa do uso gera de impacto quanto ao consumo de água com sabão descartada sem tratamento dos efluentes, bem como quanto ao consumo de energia, é responsável por mais de 50% do impacto ambiental no ciclo de vida da roupa. Portanto, os consumidores sendo mais cuidadosos para não sujar as roupas, reduzir a necessidade de lavá-las e passá-las já estarão contribuindo muito”. A explicação da presidente do Instituto Ecotece, Ana Cândida Zanesco, já dá uma boa ideia de como é importante cuidarmos bem das nossas roupas. Além disso, podemos começar a consumir melhor, o que significa comprar menos e com mais qualidade. Hoje, o chamado fast fashion prega o uso de muitas roupas, uma para cada situação, e gera uma compra desenfreada. Quem quiser ser mais sustentável, pode tentar descobrir novas formas de usar a mesma peça de roupa e começar a comprar bem menos. Além de contribuir com o meio-ambiente, você pode fazer uma boa economia. No site www.theuniformproject.com, é possível ver como uma artista conseguiu pensar em 300 looks diferentes para o mesmo vestido. Serve como inspiração para a versatilidade de uma única peça de roupa.

 

Também vale comprar em brechós (alguns vendem até pela Internet) e pesquisar alguns sites e grupos de troca de roupas. E não se pode esquecer de duas profissões bem antigas: a costureira e o sapateiro. Bons profissionais podem dar vida nova a roupas e sapatos que achamos estar acabados.

 

Projetos

 

Para quem quiser se engajar na ideia da sustentabilidade na moda, vale a pena conhecer alguns projetos do movimento chamado Upcycle, que reaproveita roupas, retalhos e aparas de tecidos sem submetê-los ao processo físico e químico da reciclagem. Segundo dados da Creativy Economy, mais de meio milhão de toneladas de roupas e têxteis são descartados no lixo e aterros por ano em todo o mundo. Para se ter uma ideia, somente Santo André, na grande São Paulo, quatro toneladas de resíduos de confecções são descartados por mês em aterro sanitário. Sendo assim, seria muito bom para o meio-ambiente que boa parte disso fosse reaproveitada.

 

É o que faz a empresa EcoSimple, que fabrica tecidos a partir de material reciclado, sem a necessidade de tingimentos e outros processos que agridam o meio-ambiente. Os materiais são originários de garrafas PET, aparas de confecções dentre outros descartes da cadeia têxtil que, através de processos tecnológicos de última geração, transforma-se em fios prontos para serem utilizados. Na última edição do SPFW, foi produzido um tecido exclusivo para o estilista Alexandre Herchcovitch, que criou dois looks para seu desfile masculino: um trench coat com aplicações de bolsos e abertura nas costas e calça alfaiataria e paletó com aplicações de bolsos.

 

Adepto do movimento, Herchcovitch , também participa do projeto Moda Reciclada, do Morumbi Shopping, pelo qual você doa aquelas roupas que não usa mais e elas serão totalmente repaginadas pelo estilista. Depois, serão vendidas em uma pop up store e a renda será revertida para a ONG Florescer.

 

Saiba mais
Veja dicas de sites e dados do impacto ambiental causado pela indústria têxtil no blog.revistadotatuape.com.br